Sob o olhar das matriarcas

Ponto de Cultura Batá Kossô abre inscrições gratuitas para oficina de percussão Tambores de Rei
25/09/2019
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Em memória de Leda Cardoso

Tradicionalmente na tarde da quarta-feira de cinzas, as alfaias e os agbês, as caixas e os agogôs, as ganzás e os tambores saem da rua do Piza 129, em Santa Tereza, rumo à Igreja de São Bento para a primeira parada do roteiro de carnaval. O grupo Batá Kossô atua desde dezembro de 2012 e não raro incorpora instrumentos de corda e sopro, referências de blues e jazz, à sua musicalidade que é mistura de reggae, coco, ciranda, caboclinho, maracatu, afoxé, samba, boi e cavalo marinho.

A alegria não é só dos foliões e vizinhos, mas também da família que rege e apronta tudo. Talvez quem veja o espaço arrumado, o amalá e a bacalhoada fartos e o brilho das roupas não saiba que antes deste momento houve reuniões, ida às compras, e um bom tempo na costura e na cozinha com de um punhado de pressa. A agitação não vem sem altas doses de carinho por parte das mulheres que ajudam a realizar este instante.

Givaci, ou tia Ci, adora o brilho das roupas e se esmera nos detalhes das camisas e seus ajustes. Givanilda, ou tia Cut, ama a festa e a música, cuida para que o espaço receba bem a todos. Givanice, ou tia Big, sente satisfação ao alimentar as pessoas com a feijoada ou o bacalhau que aprendeu a fazer com a avó Maria do Carmo. Givailda, ou tia Giva, mãe do cabeça do grupo, cuida em organizar os detalhes e em divulgar a festa ao máximo para a todos receber. É o olhar dessas irmãs, as matriarcas, que nos guia aqui.

No dia está tudo certo: estandarte em mãos, músicos a postos e, após uma breve prece e a benção com ervas, a saída oficial. O amasi, essa benção, é preparado pelas filhas, Jéssica e Marrianne, para a proteção de todo o grupo, que da Igreja segue pela 27 de Janeiro, depois pela Igreja de São Pedro até a Prudente de Moraes. Nos Quatro Cantos, reúnem seu ritmo ao de outros grupos que, como eles, continuam a brincar a festa de Zé Pereira.

As famílias, com adultos e crianças, caminham pela rua Treze de Maio, descem em Boa Hora e chegam à casa de dona Dá — foliã nata, que sempre entrega um troféu aos grupos e orquestras que lhe trazem alegria. Todo ano, o mimo traz um desenho diferente, já teve bailarina, disco, farol e até mesmo o Homem da Meia-Noite. Dali só saem quando outra turma chega.

Partem para as comunidades vizinhas. No V8 e V9, onde nenhum bloco nunca passa, o Batá Kossô faz questão de ter em seu trajeto para valorizar os territórios. Bem perto fica o ponto de início e, já noite, eles estão de volta ao Piza, mas nem por isso deixa de haver uma multidão.

Com uma última saudação aos orixás, em especial Xangô, se encerra o cortejo. Mas é aos poucos é que os foliões vão se despedindo. Sob o pé de aroeira no quintal, a banda vai se individualizando, já são homens e mulheres celebrando mais um pouco antes de cada qual seguir seu caminho. Não tarda para ter outro momento em que estejam juntos. Em todos esses anos, o período mais longo de distanciamento foi em 2020, durante a pandemia.

O novo ensaio é a retomada, o que vem acontecendo aos poucos. É um desafio que se soma aos anteriores, comuns a grupos que promovem ações culturais. A busca por recursos é constante, com participações em editais às vezes em cima da hora ou negações e mais correria para realizar o que já se pensou em fazer. Não é só no carnaval que um grupo cultural precisa brilhar.

No decorrer do ano, há ensaios, oficinas para jovens e trabalho solidário. Além da música, a família se une em torno de um legado espiritual de doação. A sede do Batá Kossô é no Centro Espírita Maria Francisca de Assis (Cemfa), um terreiro de Umbanda em que ninguém é obrigado a participar, mas onde a religião rege os princípios de harmonia e boa convivência.

O local foi criado pela mãe das mães, dona Hilda Cardoso, em 1963, seguindo o conselho de sua guia espiritual, Maria Francisca de Assis, uma freira que trazia mensagens de paz e conforto. Inicialmente ela relutou em fazer do lugar um centro umbandista, mas o chamado foi mais forte e as tradições espíritas se misturaram a tradições afroindígenas, assim como o ritmo do Batá Kossô não é de uma fonte só.

Hilda realizava benzeduras, reuniões kardecistas e doações de cestas básicas, servia sopa à noite e estava sempre disponível para aconselhar os vizinhos que iam constantemente vê-la. Era raro não ter pessoas em sua porta. Quando morreu em 1998, sua filha Leda, ou Givoleide, assumiu as tarefas e organizou no local também atividades educativas, de reforço e alfabetização — é que essas irmãs, e também suas filhas, Jéssica e Marrianne, são principalmente professoras e a família sabe que o conhecimento só funciona mesmo em movimento, na troca.

Assim, nada mais natural que o Batá Kossô também promovesse encontros educativos, de transmissão de saberes não só musicais, mas também dos costumes relacionados à tradição dos tambores.

Cursos de alfabetização, reforço, percussão e outras atividades culturais. Há uma busca por retomar tudo isso e com mais gente fazendo parte. A dificuldade não é só pelo momento mundial, mas também por um processo íntimo. Leda, ao final de 2019, deixou a família numa travessia súbita que marca saudade. A família toda se fez responsável pelo local e vem, aos poucos, se reconstruindo. Um por todos e todos por um, a espiritualidade enquanto guia.

Na saída e no encerramento da quarta-feira de cinzas, sempre se saúda a Xangô, o rei de Kossô, patrono do grupo, e a cada orixá. É pedido de agradecimento e benção, proteção para reger a festa dos tambores de rei. Kawô Kabyesí obá Kossô.

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